Talvez desde a eleição do Olívio Dutra para o governo do Rio Grande do Sul (1998) eu não me interessava tanto pelas eleições. 2002 foi emocionante, certamente, mas não houve tanto debate, não houve tanto o que conversar. Em 2006 tinha o mensalão, foi traumático demais perceber o que o PT tinha se tornado, não houve tempo para digerir o ocorrido, o que de certa forma esfriou o debate.
Vou listar aqui os temas que foram os legados de 2010 para o debate político. Concordo que ocorreu uma grande baixaria, uma regressão no nível do discurso. E como combater isso? Com mais debate, mais conversa.
1. Marina Silva.
Um fenômeno que surpreendeu. Ela está acima do partido. Ela defende uma bandeira universalista e que está na pauta do dia. Basta somar isto ao desgaste natural dos partidos que tiveram no poder nos últimos 16 anos, e a total falta de projeto destes partidos (se baseiam no continuísmo mesmo, afinal, é cansativo e difícil ter idéias). Aí estão os 20% no 1º turno. A neutralidade no 2º turno deu provas da coerência de Marina, que abriu mão da filosofia do “poder a qualquer preço” que o PT e o PSDB estão enterrados até o pescoço. Qual o preço disso? Marina é um nome sem partido. O PV é uma sigla insignificante ainda, só conseguiria algo se aliando (o que não é problema, afinal de contas todo mundo tem o Michel Temer que merece). O próprio discurso ambientalista é cheio de picaretagem, o ambientalismo apocalíptico é uma grande patifaria, e nem sempre todo discuro ambiental é científico, e muitas vezes ele é manipulado por interesses mesquinhos. Talvez uma carola e CDF como a Marina faça bem para o PV, pois ambientalismo sem responsabilidade não adianta em nada.
2. Aborto.
Este talvez seja a coisa mais importante ocorrida nas eleições, e a menos discutida seriamente. A campanha anti-PT envolvendo o aborto iniciou fora da cúpula do PSDB, que só aderiu a ela convictamente no começo do 2º turno. No entanto, isto se revelou um grande tiro no pé, até a Fátima Bernardes não gostou dos rumos da campanha Serrista, e quando a questão do aborto esfriou, nem o Papa conseguiu trazer ela de volta à tona. O PSDB se ferrou, mas agora a bola está quicando: rompeu-se, pelo mais sórdidos motivos, uma cortina de silêncio que existe em torno das milhares de mulheres que abortam irregularmente Brasil afora. É preciso descriminalizar a “usuária”, acho que isso já é consenso, mas já vimos que uma regularização do aborto como prática do SUS contaria com a forte e sistemática oposição dos movimentos religiosos, que são muito mais organizados do que os movimentos pró-aborto.
Seja qual for o rumo que o assunto tomar, é preciso debater. Romper a cortina de silêncio que envolve este sério tema, mas dessa vez não para derrubar a Dilma, mas para atacar o problema na sua raiz: a educação sexual, o direito da mulher, a saúde pública. Estes são os temas que devem pautar a discussão, e não a ideologia de religião ou partido. O SUS não pode sair por aí fazendo aborto sem que o governo promova educação sexual. Primeiro educa-se, depois vê no que dá, eis o meu pitaco.
3. O desespero do PT.
Diante da perda dos votos atribuídas às duas pautas anteriores, o PT caiu num desespero, completamente infundado. A campanha anti-PT sobre o aborto alimentou a intolerância do próprio PT, vi surgir novamente alguns resquícios daquele velho PT, brigão, insolente, e até um pouco golpista. Hoje o PT é outro: ele critica a irresponsabilidade econômica das propostas do Serra, o Lula chama banqueiros de “companheiro” (não estou criticando, só informando), o BNDS investe milhões na Vale do Rio Doce.
E o que o PT tinha para contra-atacar o PSDB do Silas Malafaia? A velha catilinária das privatizações, como se ainda estivéssemos em 2002, ou pior, em 1998. Aja saco pra isso. Eu já vi até o José Dirceu admitindo que o Brasil ainda tem um problema de inchaço do Estado (numa entrevisto ao Canal Livre). Quando houve o plebiscito sobre a privatização da Vale, em 2007, não se discutia a reestatização, mas sim a irresponsabilide da forma como foi privatizada. Ou seja, é necessário discutir “o que” e “como” privatizar ou não privatizar. Caso contrário, ficamos nesse nacionalismo barato e hipócrita de “vocês privatizaram mais do que a gente”, que no final das contas só convence quem já vota no PT mesmo.
Sou completamente a favor de indústrias-chave, principalmente de extração de recursos naturais, sejam altamente reguladas pelo Estado, acho que o modelo Petrobrás de empresa pública com capital privado já mostrou que pode dar certo. Outras áreas estratégicas, saúde e educação, precisam estar na mão das comunidades que nela estão engajadas, sob financiamento estatal. Se discutiu isso na campanha? Não, apenas repetiu-se o jargão: “o pré-sal é nosso”. Depois os PTistas se ofendem quando se compara Lula à Getulio Vargas.
Eu não espero muito dos setores racistas e intolerantes da nossa sociedade. O que dizer da opinião política de um bispo ou pastor? O melhor é ignorar mesmo.
O que não pode é o PT alimentar a intolerância dentro das suas fileiras, pois este foi exatamente o erro do PSDB, que era sim um partido de centro-esquerda, e agora sabe-se lá o que é. O PTismo alimento o Anti-PTismo, e só o bom senso e o trabalho constroem um país melhor. A convicção do eleitor no PT, ou o seu ódio ao PT, não ajuda em nada este país. É sempre um erro achar que política significa tomar um partido. O cidadão mais politizado não é necessariamente o mais partidarizado.
Eu acho que o PT é muito criticável, ele simplesmente não podem ficar no poder para sempre, mas realmente em 2010 a Dilma ainda era uma opção razoável, aceitável, diante da baixaria que o Serra abraçou. É preciso, sim, elogiar os PTistas que já entenderam que o PT é hoje uma alternativa social democrata, enquanto outros desejam o retorno da utopia.
Eu particularmente acredito no amadurecimento do PT, governar é construir consenso. Existe o limite da seriedade na política, mas não há como fugir muito das alianças, de certo fisiologismo. O que o PT pode e deve fazer é alimentar a tolerância, a competência da sua administração, pois isto irá conquistar os não-PTistas, e deixar os Anti-PTistas sem assunto. Eu também ainda tenho fé no amadurecimento do PSDB, e na criação de uma oposição responsável, que não venda a alma ao diabo (ou ao Bispo).
Mas, é preciso conversar… Se tem alguma coisa que a blogosfera pode fazer pelo Brasil, é combater estes radicalismos que afloram de tempo em tempos.